domingo, 24 de março de 2013

O HOMEM COMO PRODUTO SOCIAL



A filosofia política de tradição burguesa trabalha com a categoria de um "estado natural"; no caso das desigualdades sociais, é comum encontrarmos análises que colocam-nas como "naturais": todos os homens são naturalmente diferentes, e as diferenças nas condições sociais são nada mais nada menos do que extensões destas diferenças naturais. Sendo assim, o sucesso ou o fracasso, o domínio ou não do saber, a riqueza ou a miséria são simplesmente o fruto do trabalho de cada homem, trabalho este que se processa de acordo com as características e "aptidões naturais" deste homem. Naturalmente, então, a sociedade será desigual, pois os homens são desiguais: um é rico porque teve aptidão suficiente para aproveitar as oportunidades que lhe apareceram; outro é um miserável operário porque suas características naturais assim o determinaram. A sociedade e a cultura são um simples reflexo da natureza.

Bakunin insurge-se contra essas afirmações. Para ele o homem é um produto social e não natural. É a sociedade que molda os homens, segundo suas necessidades, através da educação. E se a sociedade é desigual, os homens serão todos diferentes e viverão na desigualdade e na injustiça, não por um problema de aptidões, mas mais propriamente por uma questão de oportunidade. Não podemos mudar a "natureza humana", mas podemos mudar aquilo que o homem faz dela na sociedade: se a desigualdade é natural, estamos presos a ela; mas se é social, podemos transformar a sociedade, proporcionando uma vida mais justa para todos os seus membros. Bakunin procura mostrar que o homem é determinado socialmente:

          "Tomando a educação no sentido mais amplo desta palavra, incluindo nela não somente a  instrução e as lições de moral, mas ainda e sobretudo os exemplos que dão às crianças  todas as pessoas que as cercam, a influência de tudo o que ela entende do que ela vê, e não somente a cultura de seu espírito, mas ainda o desenvolvimento de seu corpo, pela alimentação, pela higiene, pelo exercício de seus membros e de sua força física, diremos com plena certeza de não podermos ser seriamente contraditados por ninguém: que toda criança, todo adulto, todo jovem e finalmente todo homem maduro é o puro produto do mundo que o alimentou e o educou em seu seio, um produto fatal, involuntário, e consequentemente, irresponsável."

Por outro lado, embora determinadas características humanas sejam formadas socialmente, não deixa de ser verdade que outras características do homem são naturais. As características naturais não podem ser transformadas, mas devem ser plenamente conhecidas, através da ciência, para que possam ser dominadas; o fato de se assumir essas características naturais não significa submissão, escravidão: fugir delas seria dispensar a humanidade. Bakunin deixa bastante clara a percepção destas características naturais em um outro texto:

          "Ao reagir sobre si mesmo e sobre o meio social de que é, como acabo de dizer, o produto imediato, o homem, não o esqueçamos nunca, não faz outra coisa do que obedecer todavia a estas leis naturais que lhe são próprias e que operam nele com uma implacável e irresistível fatalidade. Último produto da natureza sobre a terra, o homem continua, por assim dizer, por seu desenvolvimento individual e social, a obra, a criação, o movimento e a vida. Seus pensamentos e seus atos mais inteligentes e mais abstratos e, como tais, os mais distantes do que se chama comumente de natureza, não são mais do que criações ou manifestações novas. Frente a esta natureza universal, o homem não  pode ter nenhuma relação exterior nem de escravidão nem de luta, porque leva em si esta natureza e não é nada fora dela. Mas ao identificar suas leis, ao identificar-se de certo modo com elas, ao transformá-las por um procedimento psicológico, próprio de seu cérebro, em idéias e em convicções humanas, se emancipa do tríplice jugo que lhe impõem primeiro a natureza exterior, depois sua própria natureza individual e, por fim, a  sociedade de que é produto.

          "(...) Ao rebelar-se contra ela rebela-se contra si mesmo. É evidente que é impossível para o homem conceber somente a veleidade e a necessidade de uma rebelião  semelhante, posto que, não existindo fora da natureza universal e carregando-a consigo, achando-se a cada instante de sua vida em plena identidade com ela, não pode considerar-se nem sentir-se ante ela como um escravo. Ao contrário, é estudando e apropriando-se, por assim dizer, com o pensamento, das leis naturais dessa natureza – leis que se manifestam igualmente, em tudo o que constitui o seu mundo exterior, e em seu próprio desenvolvimento individual: corporal, intelectual e moral -, como ele chega a sacudir sucessivamente o jugo da natureza exterior, o de suas próprias imperfeições naturais, e, como veremos mais tarde, o de uma organização social autoritariamente  constituída."

Dentre as características naturais do homem não estão, entretanto, outras características - como a liberdade, por exemplo - que são um produto da vivência do homem em sociedade. Sendo assim, é necessário que se domine o conhecimento científico sobre as leis naturais e sobre os mecanismos e estruturas da sociedade, para que seja possível a construção de uma nova sociedade e de um novo homem, fundados na liberdade, na justiça e na igualdade. A construção da liberdade é processo de aprendizado da natureza e da cultura.

Mas se o homem é, em grande parte, uma construção social, é possível que uma sociedade justa - através do aprendizado pelo contato direto - produza homens completos, livres e felizes:

          "Para que os homens sejam morais, isto é, homens completos no sentido mais lato do termo, são necessárias três coisas: um nascimento higiênico, uma instrução racional e integral , acompanhada de uma educação baseada no respeito pelo trabalho, pela razão, pela igualdade e pela liberdade, e um meio social em que cada indivíduo, gozando de plena liberdade, seja realmente, de direito e de fato, igual a todos os outros."

Bakunin reconhece na educação a função de formar as pessoas de acordo com as necessidades sociais, o que hoje chamamos de dimensão ideológica do ensino. E é isso que ele ataca na educação trabalhada pelo sistema capitalista, cujo objetivo é perpetuar a sociedade de exploração: ela ensina os burgueses a explorar, dominando todos os conhecimentos disponíveis e não vendo outro modo de vida; e ensina as massas proletárias a permanecerem dóceis à exploração, não se rebelando contra o sistema social injusto. A escola passa então por uma instituição perversa, um aparelho de tortura que mutila alguns membros para moldar o homem segundo seus injustos propósitos. A educação capitalista não forma um homem completo, mas um ser parcial, comprometido com princípios definidos a priori e exteriores a ele; em outras palavras, a educação capitalista funda-se na heteronomia. Mas nem por isso ele deixa de reconhecer que a educação também pode ser trabalhada de outra maneira, perseguindo um objetivo oposto ao da educação capitalista:

          "Será preciso, pois, eliminar da sociedade toda a educação e abolir todas as escolas? Não, de modo algum; é preciso dispensar a mãos cheias a educação nas massas, e transformar todas as igrejas, todos estes templos dedicados à gloria de Deus e à submissão dos homens, em outras tantas escolas de emancipação humana. Mas, antes de tudo, entendâmo-nos: as escolas propriamente ditas, em uma sociedade normal, fundada sobre a igualdade e o respeito à liberdade humana, deverão existir apenas para as crianças, não para os adultos; e para que se convertam em escolas de emancipação e não de submissão, terão que eliminar toda essa ficção de Deus, o eterno e absoluto escravizador, e deverá fundamentar toda a educação das crianças e a instrução no desenvolvimento científico da razão, e não sobre a fé; sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais, e não o da piedade e da obediência; sobre o culto  à verdade e à justiça, e antes de tudo sobre o respeito humano, que deve substituir em  tudo e por tudo o culto divino."

A realização de uma educação com estas características não é, entretanto, imediata e nem um pouco tranqüila, e Bakunin está consciente das dificuldades a serem enfrentadas. Por um lado, com toda certeza a reação da sociedade capitalista a tal projeto pedagógico seria radical: tentaria ao máximo resguardar-se, não permitindo que tal sistema educacional pudesse formar pessoas conscientes e críticas, livres e justas, que não poderiam ser cooptadas pela sociedade de exploração, colocando-a em xeque; por outro lado, pelo efeito maléfico que esta sociedade exerceria sobre as próprias pessoas egressas das escolas que trabalhassem com essa perspectiva crítica e libertária . E como a educação mão se processa apenas na instituição escola, mas na sociedade como um todo, uma escola revolucionária não lograria alcançar plenamente seus objetivos em uma sociedade reacionária. Aqui vem à luz a dialética social de Bakunin: uma nova educação, somente, não constrói a nova sociedade, e nem a nova sociedade é possível sem um novo homem, em cuja formação é de extrema importância uma nova escola. No entanto, fundar uma nova escola no seio da velha sociedade, sem a preocupação de organizar um trabalho revolucionário para transformar paulatinamente as estruturas sociais, é condenar esta escola ao fracasso. Bakunin escreve:

          "Se no meio existente se conseguissem fundar escolas que dessem aos alunos instrução e uma educação tão perfeitas quanto é possível hoje imaginar, conseguiriam elas criar homens justos, livres e morais? Não, porque ao sair da escola se encontrariam numa sociedade que é dirigida por princípios absolutamente contrários a essa educação e a essa instrução e, como a sociedade é sempre mais forte que os indivíduos, não tardaria a dominá-los, isto é, desmoralizá-los. Mais ainda, a própria função de tais escolas é   impossível no atual meio social. Porque a vida social abarca tudo, invade as escolas, as           vidas das famílias e de todos os indivíduos que dela fazem parte."

Através destas afirmações, Bakunin procura mostrar que, apesar de ter uma participação fundamental no processo revolucionário, a escola não faz sozinha a revolução. A sociedade não é mecânica. Se existe exploração porque não há consciência, não basta que aos poucos eduquemos e conscientizemos as pessoas para que a sociedade se transforme. Os caminhos sociais são mais complexos e obscuros; longe de ser um mecanismo simples e previsível, a sociedade é - como já apontava Proudhon – um frágil e tênue equilíbrio entre uma multiplicidade de forças, e o meio social humano é muito mais próximo da imprevisibilidade. A educação revolucionária e os trabalhos revolucionários de base, como a organização, por exemplo, devem ser articulados, processados simultaneamente, para que se possa ter esperanças de, aos poucos, conseguir dar alguns passos no sentido da revolução social que destruirá as bases da antiga sociedade.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Homeschooling: senso comum, bom senso e senso científico






Muitos pais e mães que optaram por educar seus filhos fora das escolas tem medo de falar sobre isso. Sabem que vão ser atacados imediatamente por quem está a (não) os escutar.  Muitas crianças  unshoolers ou homeschoolers, preferem não dizer nada quando lhes perguntam : onde você estuda. Sabem que podem ser alvo de preconceitos, criticas, de mais perguntas e chegam até a ouvir insultos contra seus pais e coisas fortes como “eles deveriam ser presos”.  É difícil ser de fato escutado. As perguntas que as pessoas fazem, em geral, não podem ser respondidas com uma frase simples, como “eu estudo no colégio tal ou,  o filho estuda na escola tal”. Não. Em geral, é necessário explicar muitas coisas. E quase nunca as pessoas estão dispostas a escutar o que tem para ouvir dessa experiência diferente. Então, é normal ter que ouvir...conselhos, advertências, ameaças e até insultos.

Mas, depois de ter escutado muitas pessoas dando conselhos, advertindo, ameaçando e insultando...depois de muito ler notícias sobre o tema, artigos e de visitar blogs do mundo todo, fui percebendo que  o que as pessoas tem a dizer sobre homeschooling, ou unschooling, em geral se repete bastante, os argumentos são sempre os mesmos e existem poucas diferenças entre uma pessoa e outra. Mesmo quando se trata de pessoas com “autoridade pública”, ou “autoridade científica”,  em geral, falam desde o sendo comum. Alguns conseguem chegar ao bom senso e, nem mesmo os cientistas falam desde o que seria um senso científico sobre o tema.

As falas do senso comum sobre homeschooling:



Os que falam desde o SENSO COMUM, que são a maioria, fazem julgamentos absolutos sobre o que é o Homeschooling.  Não tem a menor dúvida quanto ao que dizem. Desde sua segurança total, se permitem desqualificar decididamente essa prática educacional. “É um erro”. “É um absurdo”.  Para eles, por princípio, só a escola  tem o poder, a capacidade, a condição, de educar crianças. E por princípio, toda e qualquer família que não leve seus filhos para uma instituição escolar, está errada.

Não importa se quem fala essas coisas é um professor universitário com doutorado, um professor de escola, um burocrata do ministério, um juiz, um pai ou mãe, ou outra criança. O conteúdo é o mesmo.  A sensação ( note-se que uso a palavra sensação) que eles tem é que algo terrível ocorre à criança fora da escola. Ela está perdendo algo fundamental, algo essencial e o dano será irreparável. Essa criança vai perder toda e qualquer possibilidade de crescimento, de aprendizagem, de socialização.  Acham que a criança vai se perder. Que é, por tanto, uma vitima das circunstâncias em que os pais a estão colocando. Sentem um misto de pena da criança e raiva dos pais que assim estão agindo.

Não conseguem pensar qualquer elemento positivo nessa alternativa. De fato, não a entendem como uma alternativa, mas como um abismo. Tudo que conseguem imaginar é uma criança isolada, sozinha, condenada à presença insuportável do seu pai ou sua mãe, todos os dias no mesmo lugar, sem ninguém pra falar, brincar ou compartilhar.  

E no outro estremo imaginam a escola como um espaço encantado. Uma paisagem de crianças brincando, correndo, vivas. Um lugar onde estão sendo atendidas em sua necessidades, onde um professor ou professora está cuidando do seu aprendizado. Onde é Possível perceber que todo dia a progressos e conquistas.  Onde a diversidade de disciplinas, livros, informações configura um mosaico sempre miraculoso aos olhos da criança. E sobre tudo, onde reina a harmonia, a camaradagem e a amizade entre os amigos da mesma idade. 

Essa dicotomia entre casa e escola, é típica do senso comum. A escola é tudo e o lar é nada. A escola é crescimento e a família é atraso. A escola é democracia e a família tirania.  Essa dicotomia também a aplicam a   tudo o entorno. A escola é algo, o mundo é nada. A cidade, suas ruas, suas praças, suas bibliotecas, suas instituições,  são nada. A escola é tudo. A cidade é caos, perigo. A escola é ordem, segurança.  O mundo é perdição, na escola existe o controle.  Família, cidade, mundo é o indefinido, o acaso, a incerteza, a escola, é o disciplinado, o organizado.

Sempre que escuto esse tipo de argumento, penso suspirando: Como seria fácil o mundo se esse tipo de dicotomias fosse verdadeira!!”.

E então, como num passe de mágica, do medo aparece o senso de punição. A urgência de fazer valer as leis vigentes. Para o senso comum, o imediato seria fazer cumprir a lei. Que os pais sejam punidos. Que o menino seja matriculado. Que a família seja avaliada. Que sejam verificadas as perversões. Que se demonstre a traves de provas e testes o baixo QI das crianças e dos pais.

É assim, em todos os cantos do planeta.  O senso comum não é um privilégio do terceiro mundo. Famílias que optaram pelo homeschooling na Europa já tiveram que abandonar as presas seus países para não perder a guarda dos seus filhos. Crianças desescolarizadas nos  Estados Unidos sofrem ataques nas redes sociais. São chamados de todo tipo de adjetivos. As razões dos a agressores são as mesmas que as dos  chamados “cientistas da educação. 

Em geral, o senso comum encontra seu melhor aliado na imprensa escrita e televisiva. São raras as matérias que não tenham como objetivo ridicularizar e deslegitimar as famílias que optam por essa prática. Quando entrevistados os pais, mal conseguem responder as perguntas,   sem que sejam interrompidos e contestados pelo mesmo jornalista ou por um “especialista em educação”, ou um “psicólogo”, um professor escolar ou um funcionário público. A imprensa confia no “juízo”dos especialistas sobre o tema, mas nunca pergunta que estudos realizou para chegar a tais conclusões.  A final, todas as verdade ditas parecem tão obvias!!

Em geral, o senso comum, sobre qualquer tema, não está disposto a fazer perguntas. Está disposto a emitir juízos absolutos. Verdades incontestáveis. Tudo que não se encaixe nos valores defendidos desde essa perspectiva, em geral, sofrerá uma negação radical e sua condenação se deixa sentir: ora na forma de uma autoridade que não escuta,  ora na interpretação unilinear das leis, ora na expressão de preconceitos.  No caso do homeschooling, como em muitas outras questões, o  senso comum é o canal de muitas violências, desde as mais sutis e simbólicas, até as mais grosseiras e físicas.

O Bom Senso e o Homeschooling

As pessoas que se aproximam deste modelo educacional desde o BOM SENSO, não necessariamente são simpáticas a ele. Não partem a fazer uma defesa da coisa, mas tampouco se limitam a fazer criticas. A pessoa com bom senso primeiro se detêm frente daquilo que percebe que é diferente do que conhece. E, antes que iniciar um juízo, faz perguntas. Pondera. Consulta seu próprio repositório de conhecimentos para tentar entender do que se trata isso que, por ora, não conhece bem.  O bom senso, não se limita ao repertório pessoal, sabe que vai ter que consultar, perguntar, ler alguma coisa. Informar-se antes de desqualificar, informar-se antes de aceitar.

Uma pessoa de bom senso de diz assim: “Olha, eu ando muito preocupada com a educação dos meus filhos, mais nunca tinha pensado que existisse uma alternativa fora a escola. Onde posso ter mais informação?”.

O  que uma pessoa de bom senso faz é admitir que nunca viu nada assim. Nunca conheceu uma pessoa desescolarizada. Não sabia que existia isso de homeschooling ou unschooling. Nem sabe se isso é legal ou ilegal. Pensa imediatamente que algo muito novo ou pontual e se surpreende quando lhe mostram  a dimensão do fenômeno.

Uma amiga que mora numa pequena cidade do interior do Estado de Colorado nos EUAs, me disse assim: “Eu sou estrangeira aqui, mas nos 10 anos que moro aqui nunca tinha ouvido falar disso. Deixa vou pesquisar.” Passei para ela alguns links sobre grupos de homeschooling nessa cidade e muito rapidamente ela trouxe notícias: “pois estou realmente surpreendida. Desculpa minha ignorância, é que nunca tinha ouvido falar sobre isso. Conheci um grupo de famílias que pratica. O que mais me surpreendeu é que o homeschooling é antigo nos EUAs.  Aqui na cidade são muitos, tem clubes onde se encontram, tem reuniões toda semana, as crianças são super amigas...fiquei impressionada com essas pessoas”.

O bom senso leva a uma procura por informação que permita construir um juízo a posteriori, do que tais práticas implicam. A pessoa vai querer saber coisas: como é, que fazem, como chegaram a essa idéia, desde quando, e quais são as possibilidades, quais as dificuldades, quer saber se é legal, como vão fazer para ir à Universidade, etc. Desde o bom senso a pessoa pode buscar elementos para poder fazer ponderações num segundo momento.




O bom senso não leva necessariamente a adoção da prática do homeschooling.  Leva ao seu respeito ou a uma critica sadia. A pessoa pode considerar que não todas as famílias tem condições para viver a educação dos filhos dessa maneira. Pode ter informações sobre casos que deram certo e casos que não deram certo. Podem pensar que o desafio é muito grande.  Que os custos são demasiado altos. Que a dose de sacrifício por parte dos pais implica um modo de vida que muitas pessoas não estão dispostas a levar.

Quando faz criticas, estas são feitas de maneira cuidadosa.  O bom senso se permite fazer comparações baseadas em informação. Mesmo que informação secundária. Em qualquer caso, o bom senso não parte para a defesa de “ideais” puros. Pois ao comparar o homeschooling com a escola, também faz a critica desta na sua realidade.

Uma senhora amiga fez a seguinte reflexão: “Com tudo eu prefiro a escola, mesmo que a gente sabe que esta funciona muito mal, mesmo a escola privada está muito aquém do que deveria. Mas os riscos para uma família podem ser muito grandes se ela não tiver recursos suficientes para dar conta do recado. E não se trata só de recursos econômicos...falo de recursos intelectuais. Mas eu mesma, se naquela época quando estava educando minhas filhas tivesse conhecido algo assim, tal vez tivesse pensado duas vezes”. 

Um discussão sobre o tema fundamentada no bom senso termina pelo menos em algo assim:  “É muito difícil pensar uma sociedade sem escolas, mas temos que admitir que como está hoje o sistema escolar não vai pra nenhum lado. Quem sabe, seja necessário ir ensaiando saídas para esse labirinto que inventaram”.

CIÊNCIA, ESCOLARIZAÇÃO E DESESCOLARIZAÇÃO

Se um especialista em escolarização  decide falar contra a educação desescolarizada, deveria, ao menos fazê-lo cientificamente. Assim, não diria que a desescolarização é um erro. Apenas afirmaria que se trata de um paradigma diferente de educação, cujos princípios são fundamentalmente diferentes dos princípios seguidos pelo paradigma escolarizado.

Sendo a escolarização um paradigma que conta com o aval do Estado e da Lei, é evidente que se trata de um paradigma dominante. O que significa que a relação deste com qualquer outro paradigma de educação não gira entorno da sua verdade ou falsidade , mais da sua proximidade com os centros de tomada de decisão, isto é, se trata de uma relação de poder e não de veracidade.

É isto que faz com que nos debates os defensores do paradigma escolarizado de educação funcionem como ideólogos de um regime e não como cientistas.  Se falassem desde o ponto da ciência teriam que limitar-se a comparar os paradigmas e perceber que são, simplesmente diferentes.

Por isso categorias como socialização, competência, avaliação pensadas desde o modelo escolarizado, devem ser completamente redefinidas desde o modelo desescolarizado.  Se tratadas como categorias científicas, deveriam estar sujeitas a esses limites. Se fossem científicas, não poderiam operar como universais. Quando utilizadas como absolutamente verdadeiras, o que seria ciência passa a ser o exercício autoritário do poder. É isso é outra coisa.

Assim, o cientista que se lança a desacreditar um modelo educacional diferente do escolarizado, a partir de categorias que não se aplicam a esse modelo, só está falando mal de si mesmo, está demonstrando que nem mesmo ciência é capaz de fazer. Se quer fazer uma defesa radical do modelo escolarizado o que pode fazer é dizer abertamente que essa é a sua crença, que essa é a sua fé e que está disposto a fazer o impossível para defendé-la e mesmo a atacar, encarcerar, ridicularizar, processar,  aqueles que não acreditam nela. Assim pelo menos agiria coerentemente e honestamente. Diria: este é um combate entre verdades absolutas e estou disposto a negar sempre que puder a verdade que não combine com a minha.  Por isso, escolarização e desescolarização são  modelos de educação fundamentalmente diferentes. Essa é a única verdade.

De fato, a emergência da escola historicamente, não obedeceu a parâmetros científicos.  Sim a parâmetros religiosos, primeiro, e políticos depois. Foram os clérigos da Idade Media (quando ainda não existia a ciência como nos a conhecemos atualmente) os que plantaram a semente e depois os governantes alemães e franceses de inícios do século XIX.  Isto, por si só demonstra que  o modelo escolar não tem uma base científica, mas ideológica.   O que pode ser dito é que com o passar do século XIX e XX, diversas alianças entre política e tecnologia tem dado ao modelo escolar algumas das características atuais: o tipo de arquitetura, o tipo de burocracia, o tipo de currículo, o tipo de disciplina.  Mais nada disso é ciência no sentido estrito.

Cabe perguntar-se o que disse a ciência a respeito do aprender e do ensinar? Da escola?

Cabe. E cabe inquirir onde foi que os sistemas educacionais escolarizados incorporaram efetivamente os conhecimentos vindos da ciência nas práticas educacionais: o que de científico, em sentido estrito, tem os prédios, os planejamentos, as regras,  os processos burocráticos, a formação dos professores, o modelo de aula, os horários, a quantidade de conteúdo, o currículo, o ritmo empregado, o modelo de avaliação escolar e a compulsoriedade e os propósitos do modelo?  Talvez a resposta certa seja: nada disso é ciência. Nem mesmo em sentido relativo.

Ao falar de questões como socialização, por exemplo, um cientista deve revisar as diversas teorias existentes sobre o tema e perguntar-se se uma delas permite uma interpretação do tipo de socialização que vivem as crianças fora da escola. Pode também comparar isto com o tipo de socialização vivido dentro da escola. O que não pode é dizer que socialização só se vive dentro da escola ou que a ideal seria a socialização escolar porque então uma vez mais estaria driblando os limites que o campo científico estabelece.  Muito menos pode sair qualificando negativamente ou negando a socialização vivida fora dos muros da escola.




Um cientista pode igualmente comparar teorias diversas sobre educação e perceber que existem diversas formas históricas. Uma delas é a escolarização. Pode comprar esta com outras modalidades, e ver que desde que existe humanidade houve educação e que na maioria do tempo histórico esta não ocorreu de maneira escolarizada. Pode também, descrever os elementos de cada uma delas, seus princípios e fundamentos. Ora tomar partido....é fazer política.

A ciência pode fazer uma história da  educação domiciliar ver como ocorreu ao longo dos séculos e quais foram as características da mesma em cada época.   Pode fazer uma sociologia e então analisar as condições sociais da sua emergência, as reações sociais a sua presença, as relações de poder que suscita, especialmente no que diz respeito de como os cidadãos se colocam a respeito do poder do Estado e viceversa. Desde a pedagogia podem ser feitas análises específicas do que implica  em termos de currículo, de didática, de ritmos e processos. Desde a psicologia da aprendizagem podem ser estudados os  efeitos que estudar em ambiente domiciliar ou em ambientes não formais tem sobre as crianças, adolescentes, jovens e adultos. Podem  e devem ser estudados desde a psicologia questões diversas relativas à constituição da personalidade, a capacidade de relacionamento, resposta a desafios, aceitação da disciplina. Desde o ponto de vista do direito, podem ser comparadas leis de diversos países e podem ser analisadas as formas que o Estado assume em cada caso, se mais autoritária ou mais liberal a respeito, etc.

O que não pode em nenhum caso é dizer que essas questões só podem acontecer dentro da escola e que fora dela tudo dá errado...isso é senso comum.

De fato existe uma leitura desde diversas áreas da ciências sociais sobre a escola e suas práticas. O que os cientistas sociais dizem a respeito disso é que assim fica a olho nu o caráter ideológico e político do modelo educacional escolarizado. Que ele é uma estratégia politicamente instaurada de controle populacional. Mais nada. Um mecanismo de  exercício do poder político,  econômico, social e cultural.  Reunidas compulsoriamente e dispostas num espaço hierarquizado, as crianças, indefesas, são domesticáveis, controláveis, contabilizáveis, dirigíveis. Educacionalmente, epistemologicamente, eticamente como mecanismo é ineficiente. O que importa esta dado, o sistema sabe onde estão e o que estão fazendo e pensando milhões de crianças todo dia.

Fazer isso não é ciência. Fazer isso é política.  E a política é antes de mais nada ideologia, jogo de poder.

Assim, resulta estranho ouvir ou ler um cientista dizer que a educação fora da escola é, simplesmente um erro. Que socialização só pode acontecer na escola. Que os únicos que tem competência são os professores. Que o espaço ideal para aprender é o escolar. Que sem a escola ficam expostos as perversões da família.  Tudo isso, vimos, é apenas senso comum, não ciência.

De fato, não existe nenhuma teoria científica que afirme que a única socialização possível e verdadeira, que a única educação possível  e verdadeira é a educação possível e verdadeira, é a educação escolar. E se alguém erguer algo que o pareça estará apenas utilizando o nome da ciência para exercer seu poder.

Se um cientista é questionado a respeito do homeschooling tudo o que ele pode dizer é o que estudou nas suas pesquisas ou nas pesquisas de outrem sobre o tema. Não pode simplesmente dizer o que acha. Se vai dizer o que acha, então deve ter a coragem de denunciar sua ignorância a respeito do tema e explicar que vai falar como um pai desinformado sobre o tema. Se não faz isso, pesa sobre ele o uso de sua investidura de cientista para emitir juízos de autoridade sobre temas que desconhece. O que resulta num exercício de poder da pior espécie e num sério problema de ética científica. O cientista entrevistado o que deve fazer é propor pesquisa sobre um campo sobre o qual a ciência conhece muito pouco. Para isso tem que ser epistemologicamente honesto.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Servidores do IBAMA denunciam pressões de Governo Federal






Em carta divulgada no dia 31 de maio, servidores do Ibama, Instituto Chico Mendes (ICMBio) e Ministério do Meio Ambiente (MMA) denunciam as situações de assédio moral e falta de autonomia que sofrem para que grandes projetos de infraestrutura sejam aprovados sem os devidos requisitos ambientais e sociais exigidos pela lei.

Eles afirmam que situações graves já se tornaram cotidianas, como por exemplo, a alteração de pareceres, diminuição e retirada de condicionantes de licenças ambientais e a articulação para que vistoriais e autuações não sejam realizadas.


Segundo a carta, o objetivo do manifesto é “ revelar a todo o país, neste momento em que ele está no foco da questão ambiental, qual é a realidade que vivemos: desvalorização completa, falta de recursos, e constante pressão para validar um projeto político e econômico, que mascarado de desenvolvimento e economia verde, distribui, de forma injusta, mais degradação e desastres ambientais”.


Leia abaixo o manifesto:


Nós, servidores do IBAMA, ICMBio e MMA, queremos DENUNCIAR a pressão que estamos sofrendo diariamente em nosso cotidiano frente à política de aprovação desenfreada de grandes projetos em nosso país.


Estamos vivendo um momento crucial na área ambiental. Visando o avanço desses grandes projetos e do agronegócio, diversas leis ambientais estão sendo modificadas e aprovadas sem ampla discussão e sem embasamento científico, com interesses puramente econômicos, sem considerar de fato a questão socioambiental.


O avanço do capital em detrimento dos aspectos socioambientais está ocorrendo numa velocidade sem precedentes, e assistimos a isso percebendo, infelizmente, a passividade de quem dirige nossos órgãos.


Dentro desse contexto, nós, que trabalhamos diretamente com a análise técnica desses processos, com fiscalização, e com a gestão de áreas protegidas impactadas por eles, estamos vivendo uma situação de assédio moral e falta de autonomia para atuarmos como se deve, com critérios técnicos e defendendo os interesses da sociedade.


O Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, articulado com a Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul Americana – IIRSA, chegou trazendo inúmeros projetos de infra-estrutura por todo o país e, juntamente com eles, a obrigatoriedade da emissão de licenças ambientais que validem tais obras em prazos mínimos. Sem a real estrutura e tempo suficiente para análises adequadas, o servidor se vê sem os instrumentos necessários para a tomada de decisões sérias, que envolvem manutenção e preservação da vida de fauna, flora, populações tradicionais…vidas.


Além de todos esses problemas estruturais e técnicos, soma-se a pressão de: alterar pareceres, diminuir e retirar condicionantes de licenças, evitar vistorias e autuações, e diversas violações ao bom e devido cumprimento do exercício legal de nossas atribuições. Por fim, é recorrente que os gestores desconsiderem recomendações dos técnicos e adotem posturas e decisões contrárias. Situação gravíssima que se tornou cotidiana, embora até este momento, velada.


Questionamos a atuação da cooperação internacional no Ministério do Meio Ambiente e a forma como os organismos internacionais interferem na gestão do órgão. Também apontamos a direção privatista que MMA vem assumindo, esvaziando agendas de participação e controle social e estreitando laços com o setor privado, o que contraria o interesse público que o órgão deve defender.


Discutimos exaustivamente esta realidade no V congresso da ASIBAMA, que ocorreu em maio deste ano, no Rio de Janeiro, cidade que abrigará a Rio +20 e a Cúpula dos Povos, evento em contraposição. Todas as unidades da federação brasileira estiveram presentes no congresso e o que se ouviu dos servidores de todos os órgãos citados foi muito semelhante, demonstrando que não são casos isolados.


Portanto, decidimos não mais calar diante de tais absurdos, e revelar a todo o país, neste momento em que ele está no foco da questão ambiental, qual é a realidade que vivemos: desvalorização completa, falta de recursos, e constante pressão para validar um projeto político e econômico, que mascarado de desenvolvimento e economia verde, distribui, de forma injusta, mais degradação e desastres ambientais.


Pedimos o apoio de todos aqueles que temem pelo retrocesso ambiental pelo qual estamos passando, para que juntos possamos realmente contribuir com o Brasil, esse país que é formado por pessoas, matas, animais, rios, e inúmeras riquezas naturais que merecem ser defendidas.


Rio de Janeiro, 31 de maio de 2012


http://www.asibamanacional.org.br/


E ainda tem gente que acreditam piamente nos propósitos da rio + 20...





segunda-feira, 11 de junho de 2012

Agrotóxico da Monsanto causa morte de células do rim


O 'biopesticida' da Monsanto conhecido como Bt não está apenas desenvolvendo insetos mutantes e exigindo o uso excessivo de pesticidas, mas novas descobertas revelaram que o agrotóxico também está matando células do rim humano - mesmo em dosagens baixas. Por incrível que pareça, outro produto da Monsanto, o super criador de pragas Roundup Ready, também tem apresentado o mesmo efeito. Cientistas demonstraram em uma nova pesquisa que o pesticida Bt e o herbicida Roundup – que tem recorde em vendas – contém toxicidade que afeta diretamente as células humanas.
A descoberta se junta à longa lista de efeitos danosos apresentados pelas criações geneticamente modificadas da Monsanto. Essas perigosas culturas Bt atualmente dominam 39% das culturas transgênicas no globo e a Monsanto não parece estar reduzindo a sua campanha para expandir o uso do agrotóxico.
Os cientistas que fizeram a pesquisa foram liderados por Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen, na França, e são experientes conhecedores dos efeitos tóxicos do Bt e do glifosato — o principal componente usado no Roundup.
Inicialmente, Séralini e um grupo de outros cientistas descobriram que o Roundup está ligado à infertilidade e à morte de células testiculares em ratos. O relatório estabelecia que, entre 1 e 48 horas de exposição, as células testiculares de ratos maduros ou estavam danificadas ou mortas. Em somente 100 partes por milhão (ppm), o biopesticida da Monsanto levava à morte celular. Além disso, descobriram que o Roundup a 57.2 ppm matou metade da população de células - o que está 200 vezes abaixo do uso feito pela agricultura. Outro dado preocupante é o fato dos pesquisadores já terem detectado que o Roundup está acima dos limites de quantificação em 41% das 140 amostras de água subterrânea retiradas da Catalunha, na Espanha. Mesmo em pequenas doses, a pesquisa indicou que o Roundup está matando as células.

Também foi divulgado que o Roundup está danificando outras formas de vida além dos humanos, causando, por exemplo, a diminuição na população de borboletas-monarca, porque está matando as plantas que as borboletas usam como habitat e alimento. Um estudo de 2011 publicado no jornal Conservação de Insetos e Diversidade revelou que o aumento do uso do milho e da soja Roundup Ready, geneticamente modificados, está contribuindo significativamente para a diminuição da população de borboletas-monarca na América do Norte, devido à destruição da erva-leite .
A evidência de que o biopesticida da Monsanto e o Roundup estão causando danos à natureza e à segurança humana é clara, mas, mesmo assim, pouco foi feito a respeito. O EPA (Agência de Proteção Ambiental Americana) tem sido bombardeado com chamados para ação e 22 acadêmicos especialistas em milho o advertiram que as culturas transgênicas estão destruindo o futuro da produção agrícola. Quando a gigante corporação Monsanto vai ser responsabilizada pelas devastação de suas criações?


Enquanto isto no Brasil os cultivos com os  transgênicos que tem toxina BT cresce - no milho, e foi recentemente anunciado uma variedade de soja  a ser liberada e as autoridades colocam que não existem riscos nenhum e a todo momento surgem notícias como a de cima e outra relacionadas nos links abaixo.

O pior de tudo é que a nós consumidores não nós é dado de fato o direito de escolha, porque a rotulagem no Brasil não é  confiável e o próprio Ministério da Agricultura que cabe fiscalizar o cumprimento da exigência da rotulagem dos produtos transgênicos  disse que é muito difícil fiscalizar porque é um campo muito grande e para piorar a situação tramita no congresso dois projetos de leis que quer derrubar a exigência da rotulagem dos produtos transgênicos.

Infelizmente este é o Brasil...
Para saber mais:

Pesquisadores suíços confirmam efeito letal de toxina Bt sobre joaninhas


Novo estudo avalia combinação de toxinas Bt com glifosato em células humanas


Toxina de transgênicos esta presente no sangue humano, contrariando os apologistas. 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Quatro frases que fazem o nariz do Pinóquio crescer





Por Eduardo Galeano

1- Somos todos culpados pela ruína do planeta.


A saúde do mundo está feito um caco. "Somos todos responsáveis", clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade.


Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao "sacrifício de todos" nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras - inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio - não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam.


Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, "faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades". Uma experiência impossível.


Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.


2- É verde aquilo que se pinta de verde.


Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. "Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas", esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.


Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: "os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro."


O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência vai dispor de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.


O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete. 


A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.


3- Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.


Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas... As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco-92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.


No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.


A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil.


Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.


4- A natureza está fora de nós.


Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: "Honrarás a natureza, da qual tu és parte." Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo.


Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão.


Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.


* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio.

Fonte: http://faroldobuscador.blogspot.com.br/